Sexta-feira, 1 de Maio de 2009

Reflexões

Num dia destes o meu filho mais novo chegou a casa, todo satisfeito da escola.

 -Olha pai, hoje conheci uma escritora, daquelas a sério que escreve livros para crianças e tudo, que vei-o fazer uma palestra à nossa escola a Alice Vieira. Era uma senhora muito fixe! Conheces?.

 Claro que conheço como escritora e já li muitas crónicas dela em revistas e jornais e já a vi na tv. Por falar nisso até tenho aqui uma crónica dela que adorei e vou-ta mostrar. Eis a sua crónica para reflectir.

Lembrar os amigos
Por: ALICE VIEIRA, Jornalista e escritora

      No mês passado morreu uma jornalista minha amiga.

Há muito tempo reformada, o seu nome não era dos que fazem manchetes em jornais e revistas, nem sequer me lembro de alguma vez a ter visto na televisão.

Por isso, a notícia da sua morte passou despercebida, arrumada em quatro linhas que davam conta de que já tinha passado dos 70 e tinha morrido de repente.

O pior de tudo foi que, ao ler esse minúsculo obituário, dei comigo, sem querer, a murmurar:

– Pensava que já tinha morrido!

E fiquei cheia de remorsos, porque durante anos ela tinha feito parte do meu quotidiano, tínhamos partilhado esperanças e alegrias, tínhamo-nos amparado em momentos complicados das nossas vidas.

Mas, de repente, ou porque a vida se modifica, ou porque deixámos que o trabalho tomasse completamente conta de nós, ou porque fomos escolhendo caminhos diferentes, ou sei lá porquê, vamos esquecendo as pessoas com quem nos cruzámos diariamente, pessoas que nos pareciam imprescindíveis, que pensávamos ter sempre ao nosso lado e disponíveis para tudo. Vamos desabituando a nossa boca de pronunciar os seus nomes e os nossos dedos de discar os seus números de telefone; vamos esquecendo o som das suas vozes e dos seus passos, a maneira que tinham de enrolar o cabelo e sorrir.

Gostava de saber em que momento da minha vida comecei a esquecer a minha amiga agora desaparecida.

Quando mudei, pela primeira vez, de jornal?

Quando os meus filhos nasceram?

Quando chegou o 25 de Abril?

Não pode ser, porque, em todas estas vezes, eu me lembro dela.

Mas alguma vez deve ter sido.

Só que não consigo descobrir.

Sei que durante anos nunca pensei nela. E agora, quando de repente o seu nome regressa à minha memória, só me vem à boca aquela frase terrível: «Pensava que já tinha morrido.»

Existem uns sítios de bem-fazer na net, uma coisa genericamente intitulada Click to Give, que, todas as manhãs, nos recordam a nossa obrigação de clicar lá porque, a partir desse nosso simples gesto, podemos ajudar crianças desfavorecidas a terem livros e brinquedos, ou o planeta a ser mais verde, ou mulheres necessitadas a fazerem mamografias, ou os animais a serem mais bem tratados, ou mil outras coisas urgentes como, por exemplo, salvar os leões de Maasai Mara, os ocapis do Epulu, os bonobos de Salonga, ou o gorgulho azul das florestas tropicais da Nova Guiné.

Basta um clic, e ajudamos.

Pelo menos é o que eles garantem, e nós acreditamos, claro.

E clicamos, clicamos, todos os dias, sem falhar um.

Devia haver uma coisa parecida em relação aos nossos amigos.

Assim que abríssemos o computador, logo uma organização qualquer se encarregava de nos enviar a lista de todos os amigos de quem não nos poderíamos esquecer nunca, nem um só dia, e a gente clicava, clicava e, por cada vez que clicasse, o amigo recebia de nós a palavra necessária e a certeza absoluta de que, nem que fosse pelo espaço de um segundo, nós tínhamos pensado nele. E sempre que arranjamos tempo para pensar num amigo – nem que seja por um segundo – tornamo-nos pessoas melhores.

E nem são precisos grandes discursos.

Um palavra apenas.

A que eu gostaria de me ter lembrado de dizer, durante estes anos todos de esquecimento, à minha amiga agora desaparecida.

Porque às vezes basta uma única palavra para nos salvar o dia.

Para nos salvar a vida.

 

 

 

 

 

publicado por Filipe Costa às 20:16
link do post | comentar | favorito

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.arquivos

. Julho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Abril 2012

. Junho 2011

. Maio 2011

. Março 2011

. Janeiro 2011

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

.posts recentes

. As contas (des)aprovadas ...

. Festa de Nª. Sra. da Graç...

. O famoso Grilo.

. Liberdade de expressão.

. Festa da Sra. da Graça 20...

. Padim da Graça em chamas

. Graça é festa

. Festa da Sra da Graça Onl...

. 'Auto do baile dos Reis'

. A Graça é linda

.links

blogs SAPO

.as minhas fotos