Segunda-feira, 4 de Fevereiro de 2008

Padim da Graça vista por Saramago

Eis um excerto curioso do livro de José Saramago 'Viagem a Portugal' que nele relata a sua passagem por Padim da Graça. Muita gente conheceu as personagens que ele aqui descreve..

Felizmente ainda sabe para onde vai. Fica-lhe adiante Mire de Tibães (no Minho é assim, seria preciso parar em cada volta da estrada), antigo mosteiro beneditino, imponente máquina que esmaga a paisagem em redor e se alcança de longe, só frades seriam capazes destes excessos. O convento é uma ruína tristíssima. Quando o viajante entrou no primeiro claustro, ainda pensou que se estariam fazendo obras de restauro: havia ali materiais vários de construção, tijolos, areia, sinais de actividade. Depressa se desenganou: obras havia, mas das famílias que vivem nas dependências do mosteiro, e do mal o menos, sempre evitam que lhes chova nas improvisadas casas. Percorre até onde pode os frios e carunchosos corredores, há retratos enegrecidos pendurados nas paredes, forros de madeira apodrecidos, e tudo desprende um cheiro de mofo, de irremediável morte. Com diminuído ânimo, o viajante foi à igreja: é uma nave imensa, com um tecto em abóbada de pedra esquartelada, e a talha é farta e rica, como de costume. Depois do manjar de Real, não é isto sobremesa que possa ter em gosto.
É já perto de Padim da Graça que o viajante dá a clássica palmada na testa: esquecera-se, estando ali tão perto, no Sameiro, de ir visitar a citânia de Briteiros. Lá irá na volta de amanhã, mesmo tendo de repetir itinerários. E está neste pensar quando subitamente uma casa à beira da estrada lhe entra pelos olhos dentro e o obriga a parar adiante. Não é solar nem palácio, nem castelo nem igreja, nem torre nem alpendrada. É uma casa comum, de porta e janela, parede da frente baixa, alta a de trás, telhado tosco de duas águas. Grandes placas de reboco desapareceram, a pedra está à vista. À janela há um homem de barba crescida, chapéu velho e sujo na cabeça, e os olhos mais tristes que pode haver no mundo. Foram estes olhos que fizeram parar o viajante. É caso decerto raro naquele lugar porque logo se juntaram três ou quatro garotos, curiosos sem nenhum disfarce. O viajante aproxima-se da casa e vê que o homem já saíra para a estrada. Veio sentar-se na berma do caminho como se estivesse à espera. Puro engano: este homem não espera ninguém. Quando o viajante lhe falou, quando fez as tolas perguntas que nestes casos se fazem, mora aqui há muito tempo, tem filhos, o homem tira o chapéu, não responde, porque não podem ser resposta, ou são-no de mais, aqueles suspiros e trejeitos da boca. Aflige-se o viajante, sente que está a penetrar num mundo de pavores, e quer retirar-se, mas são as crianças que o empurram para dentro de casa onde nada mais há que negrume, mesmo estando aberta a janela onde o homem espairecia. São negras as paredes descascadas de argamassa, negro o chão, e negra naquelas sombras parece a mulher que está sentada a uma máquina de costura. O homem não fala, a mulher pouco é capaz de dizer, ele tolinho, com um ar de Cristo que morreu e voltou, e tendo ido e vindo nem gostou antes nem depois, e a mulher é irmã, trabalha naquela máquina quase às escuras, cosendo trapos, esta é a vida de ambos, não outra. O viajante mastigou três palavras e fugiu. Diante destas aventuras, padece de cobardia.
Não há mais fáceis filosofias que estas, e de nenhum risco: comparar os esplendores da natureza, mormente passeando o viajante no Minho, e a miséria a que podem chegar homens, ficando nela a vida inteira e nela morrendo. Ainda bem que não é Primavera. Assim o viajante achará maneira de entreter-se encontrando analogias entre a melancolia em que vai e o cair das folhas que se acumulam na beira da estrada. Estradas para fugir não faltam: Padim da Graça ficou lá atrás, o homem do chapéu sujo voltou à sua janela, e outra vez se ouve o barulho surdo da máquina de costura.
Saramago referia-se neste texto ao dito Tone Manta e sua irmã.

publicado por Filipe Costa às 20:09
link do post | comentar | favorito
6 comentários:
De ADSA a 11 de Fevereiro de 2009 às 20:38
Saramago devia ter-se referido a (Tone Manta e as irmas Teresa e Maria)
E se ele volta-se ao mesmo sitio hoje , veria uma fabulosa propriedade em lugar da velha casinha


De Filipe Costa a 12 de Fevereiro de 2009 às 08:29
De certeza que era a essas personagens que Saramago se referia. Reconheço o meu erro quando disse Tone manta e sua irmã, mas realmente eram 2 e eu conhecias vagamente, lembrando-me mais de uma que era a que tinha a máquina da costura.
Realmente hoje está lá uma bela vivenda no lugar do casebre, mas felizmente o mundo é feito de mudanças, umas para melhor outras para pior.
Agradeço-lhe o seu comentário.


De Anónimo a 10 de Fevereiro de 2010 às 22:26
Realmente não são dois, mas três.
António, Maria e Teresa...


De Luísa Oliveira a 20 de Abril de 2011 às 12:41
Adorei o texto!
É com enorme nostalgia que recordo esses belos tempos de infância na mais bela e unida freguesia, Padim da Graça!
Lembro-me da bondade da Teresinha Manta, quando eu e as minhas amigas, ainda pequeninas, lhe pedíamos para nos coser roupas para as bonecas, e ela com enorme simpatia e delicadeza lá ia conversando connosco.
Já saí de Padim da Graça há 30 anos, mas guardo as melhores recordações no meu coração para sempre!...




De anónimo a 27 de Abril de 2011 às 13:06
Luisa kê?
Tenho pra mim kés minha irmão, mas sem árvores no nome.

Inté.


De Anónimo a 27 de Abril de 2011 às 16:32

És mesmo o meu querido irmão!
Lembras-te do que aconteceu aos "pardelhos"?
:-)



Comentar post

.mais sobre mim

.pesquisar

 

.arquivos

. Julho 2013

. Abril 2013

. Março 2013

. Abril 2012

. Junho 2011

. Maio 2011

. Março 2011

. Janeiro 2011

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

.posts recentes

. As contas (des)aprovadas ...

. Festa de Nª. Sra. da Graç...

. O famoso Grilo.

. Liberdade de expressão.

. Festa da Sra. da Graça 20...

. Padim da Graça em chamas

. Graça é festa

. Festa da Sra da Graça Onl...

. 'Auto do baile dos Reis'

. A Graça é linda

.links

.frases célebres

.TEMPO

.contador

Servicio de tráfico web
blogs SAPO

.as minhas fotos